Notícias

Notícia

Recomeçar do zero: como construir influência com um novo crachá

Depois de anos na mesma empresa, quando você sai, perde mais do que um cargo. E é aí que a verdadeira competência política se revela

Quando o crachá deixa de existir depois de muitos anos, o que vai embora não é só a rotina. Muitas pessoas têm no trabalho e em seus cargos parte de sua identidade e aqui está o que muitos executivos não percebem: reputação se constrói na experiência vivida, não na história que você conta sobre si mesmo.

Uma coisa é ter prestígio em ambientes que já te conhecem. Outra, completamente diferente, é chegar em um lugar novo. Você pode ter um excelente currículo e uma trajetória única, mas terá que estabelecer autoridade do zero e provar seu valor novamente.

É aí que entra o capital político, que depende da capacidade de ocupar os espaços certos e da coerência entre intenção e ação. Ele nasce da leitura de campo: compreender dinâmicas de poder, ambientes e expectativas. É o que transforma competência em influência e influência em legado.

Chegue fazendo as perguntas certas

Antes de entrar em uma nova empresa, faça toda a pesquisa que puder. Veja na sua rede quem conhece pessoas que trabalham lá ou que já trabalharam. Entenda o clima e a cultura, mas atenção: informações muito antigas podem não refletir a realidade atual.

Se você foi recomendado, converse diretamente com esse profissional. Algumas perguntas são essenciais: quem são os stakeholders? Como as decisões são tomadas? Quem são as pessoas-chave? Que tipo de contato funciona melhor com cada um, mais relacional ou focado na execução. Esse primeiro mapa é fundamental para, aos poucos, dominar os espaços com maestria.

As pessoas vão pesquisar quem você é, mas é a experiência que vai comprovar. A confirmação de valor vem da experiência que você provoca no outro, em cada interação. Não adianta ter sido ótimo lá atrás: tem que ser agora.

Não aja com base em hipóteses

Quando você chega em um ambiente novo, é natural criar interpretações rápidas. O perigo está em formular uma hipótese e agir com base nela, não na realidade. Essa hipótese vira um filtro e você deixa de perceber nuances.

Aconteceu uma situação ruim? Muitas vezes o incômodo não tem a ver diretamente com você, mas com o que você representa. Pode ser que tiraram alguém que a pessoa gostava, que pisaram no calo dela, que ela tinha outro preferido para a vaga. Você pode simbolizar qualquer um desses cenários, mas não é sobre você.

Então, antes de reagir mal e entrar no modo defensivo, dê dois passos para trás. Chame a pessoa para um café. Comece do zero com ela. Relacionamento não se constrói na defensiva.

Posicione-se estrategicamente

“Seja você mesmo” virou quase um clichê de autenticidade. Eu acredito em se comunicar de forma estratégica. Significa colocar na mesa aqueles atributos que são seus (não de personagem), mas que são relevantes e te ajudam a se posicionar. Aquilo que é seu, mas que naquele momento não vai agregar, você guarda.

Somos multifacetados. A questão é: quais facetas valem a pena mostrar aqui, agora?

Muitas vezes a pessoa fica ensimesmada, preocupada com a própria performance, com a leitura que vão fazer dela, querendo se vender. Aí não vê o que está acontecendo, porque entrou no piloto automático.

Isso exige presença e leitura do outro: observar como ele te aborda, o tempo que dedica a você. Não dá para ir sempre do mesmo jeito. Não há receita pronta. Cada interação depende do perfil do interlocutor.

Relacionar-se é o que acontece entre você e a outra pessoa. Como esse espaço está sendo preenchido. E essa dinâmica se cria na hora: não dá para planejar antes.

O que fica quando você troca de crachá

O que vai valer daqui para frente, segundo a pesquisa 2026 Skills Horizon Report, do Programa Sydney Executive Plus da Universidade de Sydney, será menos eficiência técnica e mais competência humana para criar sentido em meio à complexidade.

Três grandes eixos moldarão as habilidades críticas dos profissionais: liderar pessoas acima de métricas; ter inteligência adaptativa para enfrentar situações novas; e exercer discernimento político e ético em decisões marcadas por poder e influência.

As empresas estão cheias de gente competente. Mas poucas pessoas têm capacidade política real: a habilidade de ler o ambiente, criar confiança e gerar sentido nas relações. Essa será uma das competências mais raras entre os líderes em 2026 e nos próximos anos.

Quando você perde o crachá de uma empresa, perde identidade organizacional. Mas o capital político bem construído, esse você leva com você.